quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Reforma ou revolução?



Na ânsia por interferir no sistema de ensino, todo governante, ao assumir mandato, tenta “reformá-lo”. Para tal reúne propostas, muitas vezes desconexas e sem objetividade. O fim último do esforço é passar para a comunidade uma imagem de grande administrador, mas o que sobra é desgaste pessoal e político. Os secretários de educação não percebem os limites temporais de seus poderes e tentam impor, à força, ações que não ultrapassam o próprio mandato. A sociedade gaúcha já está cansada de assistir discussões infindas e desfiles de vaidades pessoais. O sistema de ensino não necessita de reformas, ele necessita de uma grande revolução.
Ninguém se conforma com o desempenho da educação nos patamares atuais. É voz corrente que algo deve ser feito, mas a ação é sempre equivocada. Cada alternativa vem acompanhada de postulados ideológicos que minam a real função da Educação. Autoridades educacionais são chamadas a opinar, a sociedade se manifesta, empresários sugerem ações que funcionam muito bem em suas empresas, o sindicato fala sobre temas educacionais como se fosse autoridade para tanto. Neste tumulto não se ouve a voz do professor que está em sala de aula, não se ouve a voz dos alunos e muito menos dos pais.
A grande revolução é a da humildade, da impessoalidade, da conciliação e do diálogo. Humildade suficiente para descobrir que outros têm soluções tão eficientes quanto as suas; impessoalidade capaz de transformar o “chefe” em “líder”; conciliação e diálogo para que os projetos possam deixar de ser imposições e se transformem em objetivos comuns a toda comunidade. Uma revolução na educação tem que começar pelo respeito a estes princípios básicos, sem eles tudo será passageiro e não atingirá, de forma permanente, o sistema educacional.
O professor de sala de aula sabe muito bem o que fazer para atingir bons resultados, mas não tem meios para fazer suas propostas serem ouvidas. A sala de aula é o campo de aplicação das “reformas”, mas nunca o laboratório de experimentação, avaliação e teorização de propostas oriundas da prática docente. As autoridades desconhecem a relação professor/aluno e não têm a dimensão do potencial que desperdiçam no anonimato do trabalho do professor. A primeira grande parte da revolução é ouvir o “professor que está em sala de aula”. Ele tem muito a informar e a ensinar sobre educação. É um desperdício imperdoável ignorá-lo.
Os pais sabem o que querem para seus filhos. Eles clamam por competência, competitividade, conhecimento e civilidade. Não há pai que concorde com a aprovação do filho apenas para receber certificado. O índice de aprovação não é medida adequada para avaliarmos um processo educacional, ele é um resultado, mas diz pouco do processo que o produz. A escola não pode continuar sendo um “mundo encantado” no qual todas as crianças são iguais. Algumas necessitam atendimento especial, outras têm dificuldades de aprendizagem, outras têm problemas de socialização. Há que respeitar e superar estes obstáculos a fim de incluir estes alunos no mercado de trabalho em igualdade de condições com os demais.
A participação da sociedade é fundamental, trazendo contribuições aplicáveis à escola. Escola e empresa devem ser reconhecidas pelos resultados, mas tanto estes como os processos para a sua realização são profundamente diferenciados.
Um projeto educacional com esses fundamentos é uma revolução e não apenas mais uma reforma.

Este artigo está publicado em WebArtigos

2 comentários:

soumpoema disse...

Caro professor, ninguém mais do que o professor de sala de aula sabe tão bem do que a educação necessita, bastaria que os senhores que sentam nas cadeiras de couro e decidem os rumos da educação, os ouvissem! Muito pertinente seu artigo! Grata, por saber que há mentes que pensam, realmente!

Vasni
Tangará da Serra/MT

Gostou do conteúdo? Considere apoiar através do pix cel 51 989332043 quem sabe mudamos de plataforma..ou poemas/letras por encomenda. disse...

Professor , escrevo este projeto de artigo porque vejo relação com as "reformas" pretendidas e os novos métodos de avaliação e premiação que o governo tenta nos fazer engolir.

A competição como mecanismo de avaliação do aprendizado.


A busca dos professores e agentes do ensino por um maior empenho do aluno e um melhor resultado no processo de aprendizado, encontrou na competição uma maneira de obter resultados que convergem com muitas teorias cognitivas.
Artigos são publicados, no Brasil, sobre a eficácia desse estilo de ensino muito difundido pela experiência Norte-americana e suas famosas competições, obtendo apoio da sociedade, dos meios de comunicação e patrocínio de empresas. O assunto nos remete a teorias de pensadores, filósofos, que divergem sobre como o indivíduo capta ou processa o aprendizado.
O papel do professor na transmissão do aprendizado é dificultado pela indefinição ou incompatibilidade entre as diretrizes da escola ou de quem as normatizam, com as suas próprias experiências e métodos de ensino.
Os processos psicológicos envolvidos na disputa estão diretamente ligados ao potencial de superação do obstáculo, ao alcance de um propósito. Justificar o impacto do resultado aos participantes e seus méritos, pode camuflar outros aspectos desse jogo do saber.
O indivíduo como agente protagonista do aprendizado é submetido a estímulos e motivações, que são expectativas de uma percepção pessoal que está à prova. Não se trata de saber se possui o conhecimento e sim se esse conhecimento será o suficiente. No entanto, as teorias mais recentes valorizam o aspecto social do ensino, sendo o resultado uma amostra ampla e diversificada de cada indivíduo.

Desculpe o curto comentário.

Éderson Otharan