sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Um menino vai para o colégio


A série ESCRITORES GAÚCHOS, da RBS TV, levará ao ar dia 23 de setembro (domingo próximo) a obra Um menino vai para o colégio do escritor Cyro Martins. O curta metragem terá direção de Liliana Sulzbach e Marcello Lima, com roteiro de Ana Kessler.
O “Chasque Chic” leva a você algumas informações sobre a obra, com a intenção de auxiliá-lo na apreciação do filme. Não há dúvidas de que não é possível “adivinhar” o que será mostrado, por isso a nossa intervenção se restringe a uma visão geral do texto e a indicação de “sites**” que possam completar as informações.
Um menino vai para o colégio é uma pequena novela publicada em 1942 que em relação à Trilogia do Gaúcho a pé tem uma posição entre Sem Rumo (1937) e Porteira Fechada (1944). A crítica aponta-a como autobiográfica e isto pode ser confirmado por alguns depoimentos, além do confronto entre texto e biografia. Este particular não é pertinente para a nossa discussão.
Este pequeno texto mais parece uma pausa dentro de uma tarefa mais densa, como a escritura da trilogia. Lá, o autor lida com temas sociais, com a violência e a pesquisa histórica. Aqui, se debruça sobre um drama doméstico, sobre uma visão particular de um menino sobre o mundo e sobre si mesmo. No jogo entre o público e o privado, o autor encontra as raízes para as relações familiares sólidas e repletas de amabilidades que povoam seus textos.
O núcleo narrativo da novela preenche um espaço de tempo entre doze e dezesseis anos, mais ou menos. É o período em que Carlos vem para Porto Alegre para estudar no colégio interno. A alternância entre o internato, o ambiente familiar (durante as férias) e as viagens compõem o cenário para o desenvolvimento da ação. São João Batista, o pacato povoado, é o lugar tranqüilo e apropriado para a formação do menino e o contato com as lides campeiras na Fazenda Estrela.
Historicamente, a narrativa tem como pano de fundo a Revolução de 23, não em suas ações, mas em seus preparativos, pois percorre o tempo que vai de 1919 a 1923. O governo borgista, com sua truculência e falcatruas (p. 59), permite um nexo histórico e ao mesmo tempo contrastivo entre os ideais humanistas e civilizados que delineiam as personagens de Cyro e a política de Borges de Medeiros.
Algumas cenas são muito interessantes na narrativa e, possivelmente, sejam exploradas pelo filme. A primeira é o ataque do cachorro Carranca do qual o menino se livra pela ação do pai ao matar o animal com um tiro. Esta cena é emblemática, pois desde o início da narrativa coloca em jogo a proteção do pai e o reconhecimento do menino. “O pai aconchegava-o, acariciando-lhe o corpo trêmulo, sem lhe dirigir uma única palavra de repreensão”. (p. 15). Não se sabe se esta cena merecerá atenção da roteirista, mas com certeza é uma das mais comoventes do texto. Esta relação terna, entre pai e filho, se repete no momento em que Alfredo leva Carlos para o internato. (p. 33)
O drama doméstico, vivido por dona Alzira ao ver o filho partir para a capital, é exposto em diversas passagens, mas a habilidade de Afonso em lidar com o assunto mantém a harmonia do lar e faz prevalecer a razão dele sobre a emoção dela. O desejo da mulher não é irracional, também, pois ela quer ver o filho estudar, apenas revela o desejo maternal de manter-se sempre ao lado do filho.
Nesta questão, Carlos não se manifesta em apoio ao pai ou à mãe. O menino tem consciência da necessidade da separação do ambiente familiar para dar prosseguimento aos seus estudos e com isto tornar-se “doutor”.A vivência dele no internato é muito mais de observação do que de participação nos folguedos da meninada. Carlos é um observador, mantém-se atento a tudo e desempenha-se muito bem no papel de aprendiz, principalmente em termos de formação cívica através dos ensinamentos do pai.
Afonso não concebe, muito bem, a função do colégio que não ensina ao menino as questões políticas. Ao interrogá-lo sobre notícias da capital, em relação a Assis Brasil, estranha que o menino não saiba nada. “No internato só se cuidava de estudos e, fora deles, de futebol e religião” (p. 54). Logo após insiste Afonso: “Então, não sabes nada da política? Não és nada? Assisista ou Borgista?” “Melancia” é que não pode ser! Esta lição define o menino que passa a contar o seu interesse pela chegada de Assis Brasil em Porto Alegre. O grande ensinamento que permanece da leitura desta passagem é a autenticidade dos posicionamentos políticos, ninguém tem “direito” de ser “melancia”.
O internato também é um ambiente de passagem, pois no próximo ano Carlos passaria a morar em uma pensão, conforme sentencia o pai: “- Pro ano, você vai pra uma pensão. Já está se parando taludo demais para o internato” (p. 66). As viagens de trem são propícias para a reflexão. No último retorno de férias o garoto dá-se conta desta sua situação de passagem pelo internato e sente orgulho da atuação política do pai ao ouvir de um passageiro a referência aos preparativos para a Revolução de 23.
Ao chegar a Porto Alegre ele precisa decidir sobre ir para o internato, já tarde, pois o trem atrasara, ou ir para o hotel. Ao final decide ir para o hotel Lagache, símbolo de luxo para a cidade nos anos 20. Depois de acomodar-se no apartamento do hotel, tomar um banho e vestir o primeiro terno de linho, vai para o restaurante do hotel. Uma cena marca o seu rito de passagem da adolescência para a idade adulta. Toma vinho e fuma. “Põe um cigarro na boca pela primeira vez. O garçom se apressa em acendê-lo. Chupa a fumaça, medroso. Depois do vinho, não era tão mau o gosto estranho. (...) O silêncio, a penumbra, a delicadeza do garçom, tudo lhe comunicava uma sensação esquisita de alívio, de conforto, de vida elegante”. (p. 71).
Ponto importante no texto é a linguagem, muito bem cuidada e, mantendo o linguajar regional, traça um perfil lingüístico da região da campanha, principalmente em seus traços de bilingüismo. A roteirista do filme promete manter as peculiaridades lingüísticas, o que nos permite apreciar e reconhecer um linguajar muito rico.
Personagem importante, também, é Guilherme, tio do menino, que se constitui no elo entre o mundo rural e o urbano. É ele que providencia o internato e escolhe o da capital por considerá-lo melhor do que o de Alegrete e de Santa Maria. Esta personagem também exerce a função de informante sobre os movimentos políticos na Capital.
No mais, cabe dizer que Um menino vai para o colégio, é um texto rico pela atmosfera que cria e pelas relações afetuosas que se estabelecem entre as personagens. A ação torna-se um elemento secundário diante do ambiente de sugestão que o texto transmite. Indiscutivelmente é um excelente texto para uma transposição de linguagem, da literária para a cinematográfica.
Depois de assistirem o especial da TV, o espaço no nosso “blog” está disponível para a troca de impressões.

Notas:
* MARTINS, Cyro. Um menino vai para o colégio. Porto Alegre: Ed. Movimento. 1983.
** Celpcyro - Entrevista e Celpcyro – Escritores gaúchos

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