sexta-feira, 14 de junho de 2013

O caos na universidade brasileira


Tenho lido frequentes críticas à política do atual governo. Concordo com muitas, mas tenho resistência a aceitar estas condenações sem a devida sugestão para mudanças. Vivemos uma situação muito traumática, pois de um lado há o governo  com sua política de terra arrasada e, do outro, uma oposição que sabe tudo o que está errado, mas não tem nada para propor.
Dizer que as coisas não estão andando bem na política nacional é fácil, o problema é apontar soluções. O povo brasileiro está num dilema, de um lado reconhece a falência do modelo atual, mas não vislumbra saída, pois nada lhe é proposto.
No mundo da economia não arrisco palpite, mas na área da educação superior posso dizer algumas verdades. Vou alinhar alguns pontos sobre o ensino universitário.
Não resolve dizer que o sistema universitário brasileiro está falido, há que se apresentar soluções. As minhas podem ser equivocadas, mas não deixo de expô-las. Muito longe de imaginar solução mágica, o melhor caminho é a discussão, para tal, aponto alguns casos.
a) a universidade precisa retomar o seu papel de produtora de conhecimento. O governo transformou-a em "escolinha de nível superior". O objetivo dele é elevar o número de brasileiros com curso universitário, para isto promove uma "distribuição de diplomas". A saída é incentivar a pesquisa e a extensão. Universidade não pode ser reduzida a ensino. O pouco que existe hoje, em termos de extensão, foi transformado em programas de assistência social. A extensão deixou de ser prática para o aluno, em sua área de conhecimento, para se reduzir a "políticas inclusivas".
c) O corpo docente das IES, hoje, pode ser composto por um terço de mestres e doutores! Não há proporção estabelecida, pode ser um doutor, no curso, e o restante do terço ser mestres, sendo os dois terços restantes especialistas ou apenas graduados. Esta é uma “novidade” contemporânea. As universidades deveriam ter, em seu quadro docente, o máximo de doutores e mestres. A formação acadêmica é indispensável.
d) O ME não "fiscaliza" as instituições, ele faz "visitas" que resultam em "acordos" (“termos de ajustamento”), logo esquecidos e não cumpridos. Hoje o MEC marca com antecedência as "visitas" a fim de que as instituições preparem o “cenário” para as "rainhas vitórias". A quantidade de fichas e relatórios é desproporcional ao rigor dos resultados.
e) Nos últimos anos ocorreu a fragmentação dos cursos superiores, cada um foi desmembrado em terminalidades sem formação adequada. Uma área de conhecimento que pode servir de exemplo é a Administração. Diversos “cursinhos” deveriam ser especialização, após a aquisição de conhecimento sólido sobre administração e não uma “simplificação de conteúdos”. Deixo com os profissionais desta área a palavra.
f) Na área das licenciaturas é um autêntico caos! Os currículos foram encurtados e direcionados para a formação pedagógica. Hoje, qualquer graduação em licenciatura não tem nem 50% de disciplinas específicas, o restante é formação pedagógica e geral. Num curso, como o de letras, o aluno conclui a graduação, sabendo produzir “toneladas de planos”, mas sem domínio dos conhecimentos básicos dos estudos linguísticos e literários.
g) Outro problema grave é a descaracterização dos cursos universitários. A pedagogia foi pulverizada em terminalidades totalmente descabidas: “pedagogia empresarial”; “séries iniciais”; “pré-escolar” e outras excrescências. No passado foi um curso para capacitação dos “administradores” ou “orientadores”: tinha finalidade clara. Hoje, é apenas “revista de novidades”. A licenciatura deve estar centrada na formação específica e completada com a formação pedagógica. No sistema que temos, o acadêmico aprende “como ensinar”, antes de “o que ensinar”.
h) O Ministério da Educação é lamentável, virou arena política, sujeito a toda sorte de turbulências. Exemplos não faltam, basta examinar as edições do ENEM, um projeto sério que foi deturpado, sujeitando-se à pregação ideológica. Qualquer um percebe, ao examinar as provas, que o conhecimento foi substituído pelo discurso político. O ME é, hoje, cargo para político decadente e sem conhecimento. A solução é simples, varrer de lá os “políticos profissionais” e o batalhão de “pedagogos sem noção”, nomeando um educador para o cargo de ministro e profissionais competentes para as comissões e conselhos.
i) O dinheiro investido no ensino superior é suficiente, mas mal administrado. A atividade-meio absorve a maior parte das verbas, restando muito pouco para as atividades eminentemente educacionais. Não se fala nos desvios de verbas que são frequentes em todas as áreas, mas no dinheiro que é mal empregado. As universidades trocam atividades docentes e discentes por projetos políticos e assistencialistas.
O objetivo de incrementar as estatísticas, mostrando para o mundo um contingente maior de egressos de curso superior, não tem sentido, pois o Brasil está titulando mão de obra desqualificada. O resultado é o contingente de pessoas com formação universitária exercendo atividades incompatíveis com a titulação. A quantidade deve ceder lugar à qualidade.

O que fica deste texto não são teses, mas pontos de partida para discussão. Após apresentar sugestões, sinto-me liberado para dizer que o atual governo está destruindo o sistema educacional brasileiro e é urgente mudança de rumos. A educação de um país não pode ficar subordinada aos caprichos de grupos políticos.

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