quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Há coisas que não queremos entender.

Acreditei, por algum tempo, que crença religiosa tornava as pessoas bem mais humanas, compreensivas e acolhedoras. O tempo mostrou-me algo diferente e estranho. A religião tem o poder da crueldade, da falta de compaixão e desrespeito para com o próximo. Não raro encontramos padres e pastores dando demonstrações de pura maldade. Um exemplo é a entrevista do Pe. Odair Rizzo de Farroupilha, sobre as famílias vítimas da boate Kiss (Santa Maria). As palavras são reveladoras:

– Se os pais fossem um pouquinho mais responsáveis no papel de pai e mãe, sabendo dar o amor aos filhos, eles (os filhos) não procurariam lugares inadequados para ter o lazer. (...) Agora não adianta chorar, a tragédia já aconteceu. (...) Os pais e mães devem se sentir responsáveis e não, agora, sentir remorso porque não souberam acompanhar os filhos – declarou Rizzo.

Não consigo entender, na fala do padre, a palavra “amor”. A falta de respeito pela dor alheia, a crueldade diante do sofrimento, a falta de compromisso com o próximo, será que tudo isto pode estar contido no sentido da palavra “amor”? Claro que não!
A religião centra a ética no sobrenatural e esquece o mundo em que vivemos. Como diz Bertrand Russell, Ao dar ênfase à alma, a moral cristã tornou-se completamente individualista. A ânsia de salvação para os eleitos e de castigo para os “ímpios”, cinde a humanidade e cria um sentido deturpado de amor: “amai o próximo   (Marcos 12:30-31)“ ou seja o amor fica restrito aos próprios crentes, relegando ao ódio todos que não estão “próximos”. Só uma lógica assim é capaz de justificar tantas “guerras santas”. A solidariedade, a compreensão e o acolhimento, com certeza, ultrapassam o sentido de “amor ao próximo”.
Um episódio como este, poderia ser ignorado e relegado ao esquecimento. Mas não é uma questão individual, tanto assim que o pe. Odair deu nova declaração pedindo desculpas. O importante é perceber que esta lógica individualista e cruel é que rege as palavras e ações de alguns crentes. No correr da fala o inconsciente trai a razão e, assim, afloram as convicções mais arraigadas de nossa personalidade. O trágico deixa de ser o que o sacerdote disse e toma importância a lógica que rege as religiões.

“...os preceitos religiosos datam de um tempo em que os homens eram mais cruéis do que agora e que, por conseguinte, tendem a perpetuar desumanidades que a consciência moral de nossa época teria, de outro modo, superado” (Bertrand Russell).


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