Acreditei, por algum tempo, que crença religiosa tornava as pessoas
bem mais humanas, compreensivas e acolhedoras. O tempo mostrou-me algo diferente
e estranho. A religião tem o poder da crueldade, da falta de compaixão e desrespeito
para com o próximo. Não raro encontramos padres e pastores dando demonstrações
de pura maldade. Um exemplo é a entrevista do Pe. Odair Rizzo de Farroupilha,
sobre as famílias vítimas da boate Kiss (Santa Maria). As palavras são
reveladoras:
– Se os pais fossem um pouquinho mais responsáveis no papel
de pai e mãe, sabendo dar o amor aos
filhos, eles (os filhos) não procurariam lugares inadequados para ter o lazer.
(...) Agora não adianta chorar, a tragédia já aconteceu. (...) Os pais e mães
devem se sentir responsáveis e não, agora, sentir remorso porque não souberam
acompanhar os filhos – declarou Rizzo.
Não consigo entender, na fala do padre, a palavra “amor”. A
falta de respeito pela dor alheia, a crueldade diante do sofrimento, a falta de
compromisso com o próximo, será que tudo isto pode estar contido no sentido da
palavra “amor”? Claro que não!
A religião centra a ética no sobrenatural e esquece o mundo em
que vivemos. Como diz Bertrand Russell, Ao
dar ênfase à alma, a moral cristã tornou-se completamente individualista. A
ânsia de salvação para os eleitos e de castigo para os “ímpios”, cinde a
humanidade e cria um sentido deturpado de amor: “amai o próximo (Marcos
12:30-31)“ ou seja o amor fica restrito aos próprios crentes, relegando ao ódio
todos que não estão “próximos”. Só uma lógica assim é capaz de justificar
tantas “guerras santas”. A solidariedade, a compreensão e o acolhimento, com
certeza, ultrapassam o sentido de “amor ao próximo”.
Um episódio como este, poderia ser ignorado e relegado ao
esquecimento. Mas não é uma questão individual, tanto assim que o pe. Odair deu
nova declaração pedindo desculpas. O importante é perceber que esta lógica
individualista e cruel é que rege as palavras e ações de alguns crentes. No correr
da fala o inconsciente trai a razão e, assim, afloram as convicções mais arraigadas
de nossa personalidade. O trágico deixa de ser o que o sacerdote disse e toma
importância a lógica que rege as religiões.
“...os preceitos religiosos datam de um tempo em que os
homens eram mais cruéis do que agora e que, por conseguinte, tendem a perpetuar
desumanidades que a consciência moral de nossa época teria, de outro modo,
superado” (Bertrand Russell).
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