quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Revolução Francesa



A Revolução Francesa (1789-1799) é considerada o maior marco da história moderna, não apenas pela influência exercida, mas, principalmente, pelas lições que o confronto deixou para a humanidade. Foi um momento único e decisivo, pois o confronto entre a elite aristocrática e o povo gerou episódios de extrema violência.
No ensino médio, os professores apresentam-na como mais uma revolução, como um episódio que resultou num novo conceito de governo, mas dificilmente há tempo suficiente para um exame mais detalhado, tanto dos antecedentes como dos consequentes. O que resta, para nós, é a influência exercida na formação das novas repúblicas latino-americanas. O preceito “liberté / egalité / fraternité” está presente em todas as mentes, como o grande legado da Revolução. 
O filme “Revolução Francesa” do History Channel” é muito interessante, mas aborda, preferentemente, o período conhecido como “Fase do Terror” (1792 a 1794) que é dominado pelos jacobinos. Tem como foco central as execuções de nobres, diante da ameaça de invasão da França pela Áustria e a Prússia. É neste momento que ocorre a execução de Luís XVI e Maria Antonieta (21/01/1793).
A figura central é Robespierre (1758-1794) que leva à execução mais de quarenta mil franceses (monarquistas, girondinos e burgueses ricos). Percebendo que a violência já estava fora de controle, as forças armadas deixam de apoiá-lo e com isto ele cai em desgraça, sendo executado em 28 de julho de 1794).
Nesta fase não houve apenas crimes. Foi convocada a Convenção Nacional que determinou diversos avanços em termos de direitos, como: a) fim da escravidão nas colônias francesas; b) abolição de privilégios dos nobre e clero; c) divisão das grandes propriedades; d) assistência social aos indigentes; e) gratuidade da educação básica obrigatória.
Assistir ao filme é tentar compreender a luta das camadas mais pobres da população francesa (jacobinos) por melhores condições de vida e pela revogação de  todos os privilégios dos nobres e do clero. O filme não pode ser encarado apenas como uma exposição da violência ou, muito mais grave, depreciação da Revolução Francesa, minimizando os resultados obtidos pelo mundo ocidental. Apesar de todas as dificuldades, incompreensões e excessos, ela foi marco divisório na história da humanidade. Nas palavras de Blanning podemos ter uma avaliação mais justa:
“A revolução teve de fato um impacto enorme, embora fosse uma revolução mais do espírito que uma revolução da realidade. Ela continua atual até nossos dias, como um ideal de liberdade política e justiça social e como um modelo para a derrubada de uma ordem estabelecida.” (BLANNING: 1991, p. 71).
A Revolução Francesa não cabe num filme, muito menos num exíguo espaço crítico, mas não se pode deixar de analisá-la com imparcialidade e dentro do contexto da época. Alguns revisionistas procuram enfatizar o papel da burguesia como prevalente nos resultados finais. Apesar de grandes perdas, os girondinos tiveram alguns resultados positivos, ninguém pode negar, mas não é fato suficiente para esquecermos que é na trilha da Revolução Francesa que alcançamos a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), que mais tarde fundamenta a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela ONU em 10 de dezembro de 1948.
O filme Revolução Francesa, do History Channel, não pode ser visto sem conhecimento prévio dos fatores que culminaram na Revolução de 1789 e nos descaminhos que levaram ao período do terror. Da mesma forma, ele é excelente ponto de partida para uma reflexão mais apurada sobre este período da história. Olhar a narrativa do filme como um fato isolado é perder uma grande chance de formar espírito crítico.
O filme encerra com duas perguntas que exigem uma reflexão fundamental:
Quanta violência é justificável por uma sociedade melhor?
As pessoas têm o direito de abolir um sistema injusto e substitui-lo por um que acham mais justo e quanta violência é justificável para se fazer isto?

Olhar o filme e deixar de refletir sobre estes temas é como não tê-lo visto.

BLANNING, T. C. W. Aristocratas versus burgueses? A Revolução Francesa. São Paulo: Ática, 1991.


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