O governo, tanto estadual quanto federal, retomam a discussão sobre o aumento da carga horária, passando de duzentos para duzentos e vinte dias letivos. O que se observa é total falta de conhecimento da realidade escolar. Elegem o tempo como o vilão da situação caótica da educação brasileira, ignorando fatores decisivos no processo ensino-aprendizagem.A desestruturação administrativa é deixada de lado, parecendo que o sistema funciona muito bem, porém a realidade está estampada em todas as manchetes de jornal a cada início de ano, mas ninguém toma conhecimento da falta de professores e/ou da má distribuição dos recursos humanos. O estado não é competente para gerenciar a carga horária atual, como imaginar a ampliação dos dias letivos com tal desestruturação do quadro de docentes nas escolas?
A permanência da criança em sala de aula é fator importante para a aprendizagem, mas deve ser compreendida dentro de um contexto de ampliação e diversificação das atividades dentro da escola. A retenção da criança no ambiente escolar não se pode justificar apenas por questões sociais, mas deve ser instrumento para uma melhoria da qualidade de ensino. Alimentação e entretenimento são importantes dentro de políticas assistencialistas, mas não podem ser razão para políticas públicas em educação. Assistência social não pode ser objetivo da escola, isto cabe em outras áreas da administração pública.
Mais tempo em sala de aula deve implicar maior diversificação de atividades, incluindo aprofundamentos dos conteúdos já desenvolvidos e inclusão de outros que possam contribuir para o desenvolvimento da criança. Mais esporte significa maior número de professores de educação física, inclusão de artes significa nomeação de professores especializados, porém não é a intenção do governo. Ampliar a qualidade do ensino não passa pelos projetos do governo. O que pretendem é apenas a retenção da criança na escola.
O ensino fundamental recebeu uma ano a mais, passou de 8 para 9 e até hoje não se tem uma visão clara do modo como esse tempo extra foi aproveitado. Apenas sabemos que as crianças entram mais cedo, mas o que este ano trouxe de benefício ninguém sabe. Agora o governo bate na mesma tecla, amplia quantidade, mas esquece a qualidade. João Batista Araújo e Oliveira (Instituto Alfa e Beto) aponta para este mesmo equívoco: “Nessa medida, mais uma vez se repete o erro central da educação brasileira. Sempre se opta por fazer mais e não melhor. É daí que criam mais séries, mais tempo, mais cursos”.
Diante da incompetência para promover a qualidade em educação, o governo continua a insistir em subterfúgios como aumento da carga horária, criação de cotas e assistencialismo. Só atingiremos um patamar aceitável e com resultados consistentes no momento em que houver investimento no professor. Professores mal pagos, com formação deficiente e trabalhando em diversas escolas para sobreviver, não conseguem desenvolver atividade pedagógica eficiente. Como diz a professora Ilona Becskecházy (Fundação Lemann): “Ele (o professor) chega com formação deficiente e já não sabe dar aula. Desse jeito, aumentar o número de dias é crescer o tempo improdutivo”.
As autoridades educacionais necessitam sair dos gabinetes e conhecer a realidade das escolas. Ninguém ouve o professor que é o executor do processo e ao mesmo tempo está diretamente vinculado à realidade. Enquanto a incompetência gerir o sistema educacional, o tempo será prioridade e a qualidade permanecerá esquecida. Neste contexto, nem passando para 365 dias letivos, por ano, teremos eficiência. O problema não é tempo, mas qualificação.
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