quinta-feira, 22 de março de 2012

O “politicamente correto” ataca novamente


Não se sabe qual o resultado final, mas a situação atual é caótica. O modismo do “politicamente correto” já se tornou insuportável e cada dia encontramos mais situações de total disparate. O caso do momento é do procurador doutor Cleber Eustáquio Neves de Uberlândia, MG que resolveu investir contra o dicionário Houaiss, alegando racismo quanto ao verbete “cigano”.
Depois de tantos depoimentos de linguistas e filólogos a polêmica continua sem solução, pois não basta retirar termos dos dicionários para que a história mude. O dicionário é um registro, não um texto didático. O que dá coesão à língua é sua tradição e sua evolução. Os sentidos contemporâneos são encontrados na fala do cotidiano, mas os sentidos do passado só podem ser recuperados através do dicionário. Se no passado, um termo ou outro teve sentido pejorativo, excluindo-o do dicionário jamais baniremos o preconceito que existiu.
Em outras situações, autoridades, com poucos afazeres, já fizeram incursões pelos dicionários a fim de buscar notoriedade, como no caso do verbete “judeu” que já causou polêmica. O assunto merece algumas considerações.
Vamos à hipótese de retirarmos do dicionário todos os termos que os nobres causídicos julguem por bem patrulhar. A história não mudaria, nem o povo deixaria de empregar os termos dentro do campo semântico de seu uso. A linguagem é a maior expressão do povo, não há promotor que consiga estabelecer, ou retificar, sentidos dos dicionários. A linguagem é uma convenção social e não fruto de uma legislação. O que o procurador deve censurar é o uso e não o registro do termo.
Se retirarmos estes sentidos pejorativos do dicionário Houaiss a situação mudaria? Lógico que não, pois este é apenas um dicionário, os demais fazem os mesmos registros. Necessitaríamos fazer uma autêntica “caça às bruxas” para conseguir agradar aos “politicamente corretos”, isto no Brasil. Os dicionários franceses, ingleses e demais linguagens continuariam com seus registros, ou o procurador imagina ingressar com a ação na ONU?
O mundo contemporâneo traz recursos que escapam à mira dos inquisidores. Mesmo que o dicionário eletrônico do Houaiss fosse censurado, como proceder com os dicionários em língua portuguesa postados em Portugal e outros países de língua portuguesa? O dicionário Priberan traz os seguintes registros para “cigano”:
5. [Pejorativo]  Que ou quem age com astúcia para enganar ou burlar alguém. = BURLÃO, IMPOSTOR, TRAPACEIRO, VELHACO
6. [Pejorativo]  Que ou aquele é excessivamente agarrado ao dinheiro. = AVARENTO, SOVINA
Quem buscar na internet pode chegar a muitos registros que escapam da fúria de tal procurador.
Não vamos nos prolongar com exemplos, mas alguns termos podem ficar como sugestão para que a procuradoria acrescente mais alguns exemplos:
Galego
6. [Informal, Depreciativo]  Moço de fretes.
7. [Informal, Depreciativo]  Indivíduo que faz trabalho pesado e intenso.
8. [Informal, Depreciativo]  Homem grosseiro, malcriado ou rude.
9. [Brasil, Depreciativo]  Português de baixa instrução.

Lésbico/a
1. Relativo à ilha de Lesbos. = LESBÍACO
2. Que é relativo à homossexualidade feminina. = LESBÍACO, SÁFICO, SAFISTA s. m.
3. Natural ou habitante de Lesbos.

Grego
6. [Informal, Figurado]  Coisa obscura, difícil de compreender ou sobre a qual não se sabe nada.

Os exemplos acima são meramente ilustrativos, muitos outros podem ser colhidos numa pesquisa minuciosa. Os termos “galego”, “lésbico(a)” e “grego” merecem a mesma atenção dada ao termo “cigano”. Respeitar estes grupos sociais significa “usar” linguagem adequada ao referir-se a eles, mas isto não significa promover um “revisionismo”.  Acredito que o procurador doutor Cleber terá muito trabalho, caso leve a sério seu intento de “higienizar” os dicionários.


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