Não se sabe qual o resultado
final, mas a situação atual é caótica. O modismo do “politicamente correto” já
se tornou insuportável e cada dia encontramos mais situações de total
disparate. O caso do momento é do procurador doutor Cleber Eustáquio Neves de
Uberlândia, MG que resolveu investir contra o dicionário Houaiss, alegando
racismo quanto ao verbete “cigano”.
Depois de tantos depoimentos de linguistas
e filólogos a polêmica continua sem solução, pois não basta retirar termos dos
dicionários para que a história mude. O dicionário é um registro, não um texto
didático. O que dá coesão à língua é sua tradição e sua evolução. Os sentidos
contemporâneos são encontrados na fala do cotidiano, mas os sentidos do passado
só podem ser recuperados através do dicionário. Se no passado, um termo ou
outro teve sentido pejorativo, excluindo-o do dicionário jamais baniremos o
preconceito que existiu.
Em outras situações, autoridades,
com poucos afazeres, já fizeram incursões pelos dicionários a fim de buscar
notoriedade, como no caso do verbete “judeu” que já causou polêmica. O assunto
merece algumas considerações.
Vamos à hipótese de retirarmos do
dicionário todos os termos que os nobres causídicos julguem por bem patrulhar.
A história não mudaria, nem o povo deixaria de empregar os termos dentro do
campo semântico de seu uso. A linguagem é a maior expressão do povo, não há
promotor que consiga estabelecer, ou retificar, sentidos dos dicionários. A
linguagem é uma convenção social e não fruto de uma legislação. O que o
procurador deve censurar é o uso e não o registro do termo.
Se retirarmos estes sentidos
pejorativos do dicionário Houaiss a situação mudaria? Lógico que não, pois este
é apenas um dicionário, os demais fazem os mesmos registros. Necessitaríamos
fazer uma autêntica “caça às bruxas” para conseguir agradar aos “politicamente
corretos”, isto no Brasil. Os dicionários franceses, ingleses e demais linguagens
continuariam com seus registros, ou o procurador imagina ingressar com a ação
na ONU?
O mundo contemporâneo traz
recursos que escapam à mira dos inquisidores. Mesmo que o dicionário eletrônico
do Houaiss fosse censurado, como proceder com os dicionários em língua
portuguesa postados em Portugal e outros países de língua portuguesa? O
dicionário Priberan traz os seguintes registros para “cigano”:
5. [Pejorativo]
Que ou quem age com astúcia para enganar ou burlar alguém. = BURLÃO,
IMPOSTOR, TRAPACEIRO, VELHACO
6. [Pejorativo]
Que ou aquele é excessivamente agarrado ao dinheiro. = AVARENTO, SOVINA
Quem buscar na internet pode
chegar a muitos registros que escapam da fúria de tal procurador.
Não vamos nos prolongar com
exemplos, mas alguns termos podem ficar como sugestão para que a procuradoria
acrescente mais alguns exemplos:
Galego
6. [Informal,
Depreciativo] Moço de fretes.
7. [Informal,
Depreciativo] Indivíduo que faz trabalho
pesado e intenso.
8. [Informal,
Depreciativo] Homem grosseiro, malcriado
ou rude.
9. [Brasil,
Depreciativo] Português de baixa
instrução.
Lésbico/a
1. Relativo
à ilha de Lesbos. = LESBÍACO
2. Que é
relativo à homossexualidade feminina. = LESBÍACO, SÁFICO, SAFISTA s. m.
3. Natural
ou habitante de Lesbos.
Grego
6.
[Informal, Figurado] Coisa obscura,
difícil de compreender ou sobre a qual não se sabe nada.
Os exemplos acima são meramente
ilustrativos, muitos outros podem ser colhidos numa pesquisa minuciosa. Os
termos “galego”, “lésbico(a)” e “grego” merecem a mesma atenção dada ao termo “cigano”.
Respeitar estes grupos sociais significa “usar” linguagem adequada ao
referir-se a eles, mas isto não significa promover um “revisionismo”. Acredito que o procurador doutor Cleber terá
muito trabalho, caso leve a sério seu intento de “higienizar” os dicionários.
Leia também:
http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/cleber-eustaquio-neves/

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