
A
reprovação de mais de 90% dos candidatos no último concurso para o magistério
no Rio Grande do Sul revelou realidades “incômodas”. Alguns anunciam o fato com
surpresa, mas os que acompanham o assunto reafirmam o que já é conhecido.
Muitos fatores contribuem para este resultado degradante. Nada acontece de um
momento para outro, tudo tem seu tempo e resulta de ações anteriores. No caso
do concurso é importante observar alguns fatos.
Há
sete anos não havia concurso para o magistério estadual o que revela uma
incúria administrativa. Os políticos não querem concursos, pois contratações é
uma excelente forma de “acomodar” cabos eleitorais. Nestes sete anos são três
administrações, de partidos diferentes, mas com as mesmas práticas.
O
estado conta com um banco de mais ou menos 25 mil candidatos a contratos
emergenciais, destes, no ano de 2011, foram aproveitados mais de 10 mil
professores. Não é concebível que um órgão público tenha mais de 10 mil vagas
abertas e prefira contratar a abrir concurso. Este fenômeno não se repete em
nenhum outro setor; “há algo de pobre no ar”[1].
Este descaso com a carreira do magistério merece uma investigação mais
profunda. Sem concurso público, ocorrendo apenas “inscrições” para contrato, os
professores perdem o estímulo para a formação continuada.
Os
últimos concursos realizados não exigiram dos candidatos nenhuma competência em
suas áreas de conhecimento. Bastavam generalidades sobre educação e algumas
informações sobre legislação, principalmente o “malfadado” ECA. Um candidato a
professor de matemática respondia a mesma prova de um candidato de português ou
história. Este foi um fator de desestímulo à formação profissional, pois
conhecer o conteúdo que vai ministrar tornou-se irrelevante diante das
“novidades” pedagógicas e das elucubrações dos pedagogos.
A
formação profissional nos cursos de licenciatura tornou-se extremamente
precária nas IES. Os currículos foram “arranjados” de forma a diminuir os
custos e com isto a qualificação do acadêmico ficou com grandes lacunas. Um
universitário pode concluir uma licenciatura em 2 anos e meio e com mais dois
ou três semestres adquirir novas
habilitações, pois os currículos têm mais de 40% de carga horária comum. A
formação específica do acadêmico cedeu lugar à formação pedagógica. Este modelo
está lançando no mercado profissionais cheios de “métodos” e “técnicas”, mas vazios de conteúdos para levar aos seus
alunos.
Articulando
estes três fatores: contratos emergenciais, concursos sem avaliação específica
e formação acadêmica deficiente; não há como não chegar ao resultado trágico do
último concurso, pois este exigiu dos candidatos algum conhecimento na área de
formação. É louvável que a Secretaria de Educação assim tenha procedido. Esta
exigência, por menor que seja, é um avanço em relação à tradição de
incompetência dos concursos anteriores.
O
secretário José Clovis anuncia novo concurso para o final deste ano ou início
de 2013. Qual será a postura adotada? Um novo concurso “fácil” para preencher
as vagas existentes ou manter o padrão atual e com isto forçar os candidatos a
uma preparação adequada? O pessimismo, oriundo de mais de 40 anos de
magistério, faz-me crer na primeira hipótese.
Não
quero encerrar sem uma pergunta “incômoda”. Dos 70 mil candidatos, uns 20 mil
já são professores na rede estadual, como contratados ou como concursados com
20 horas. Como foram aprovados em torno de 5 mil candidatos e, considerando que
todos pertençam ao sistema, a pergunta é: Qual será a atitude da Secretaria de
Educação em relação aos seus professores reprovados no próprio concurso?
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