sexta-feira, 25 de maio de 2012

Concurso do magistério: uma tragédia anunciada


A reprovação de mais de 90% dos candidatos no último concurso para o magistério no Rio Grande do Sul revelou realidades “incômodas”. Alguns anunciam o fato com surpresa, mas os que acompanham o assunto reafirmam o que já é conhecido. Muitos fatores contribuem para este resultado degradante. Nada acontece de um momento para outro, tudo tem seu tempo e resulta de ações anteriores. No caso do concurso é importante observar alguns fatos.
Há sete anos não havia concurso para o magistério estadual o que revela uma incúria administrativa. Os políticos não querem concursos, pois contratações é uma excelente forma de “acomodar” cabos eleitorais. Nestes sete anos são três administrações, de partidos diferentes, mas com as mesmas práticas.
O estado conta com um banco de mais ou menos 25 mil candidatos a contratos emergenciais, destes, no ano de 2011, foram aproveitados mais de 10 mil professores. Não é concebível que um órgão público tenha mais de 10 mil vagas abertas e prefira contratar a abrir concurso. Este fenômeno não se repete em nenhum outro setor; “há algo de pobre no ar”[1]. Este descaso com a carreira do magistério merece uma investigação mais profunda. Sem concurso público, ocorrendo apenas “inscrições” para contrato, os professores perdem o estímulo para a formação continuada.
Os últimos concursos realizados não exigiram dos candidatos nenhuma competência em suas áreas de conhecimento. Bastavam generalidades sobre educação e algumas informações sobre legislação, principalmente o “malfadado” ECA. Um candidato a professor de matemática respondia a mesma prova de um candidato de português ou história. Este foi um fator de desestímulo à formação profissional, pois conhecer o conteúdo que vai ministrar tornou-se irrelevante diante das “novidades” pedagógicas e das elucubrações dos pedagogos.
A formação profissional nos cursos de licenciatura tornou-se extremamente precária nas IES. Os currículos foram “arranjados” de forma a diminuir os custos e com isto a qualificação do acadêmico ficou com grandes lacunas. Um universitário pode concluir uma licenciatura em 2 anos e meio e com mais dois ou três semestres  adquirir novas habilitações, pois os currículos têm mais de 40% de carga horária comum. A formação específica do acadêmico cedeu lugar à formação pedagógica. Este modelo está lançando no mercado profissionais cheios de “métodos” e “técnicas”,  mas vazios de conteúdos para levar aos seus alunos.
Articulando estes três fatores: contratos emergenciais, concursos sem avaliação específica e formação acadêmica deficiente; não há como não chegar ao resultado trágico do último concurso, pois este exigiu dos candidatos algum conhecimento na área de formação. É louvável que a Secretaria de Educação assim tenha procedido. Esta exigência, por menor que seja, é um avanço em relação à tradição de incompetência dos concursos anteriores.
O secretário José Clovis anuncia novo concurso para o final deste ano ou início de 2013. Qual será a postura adotada? Um novo concurso “fácil” para preencher as vagas existentes ou manter o padrão atual e com isto forçar os candidatos a uma preparação adequada? O pessimismo, oriundo de mais de 40 anos de magistério, faz-me crer na primeira hipótese.
Não quero encerrar sem uma pergunta “incômoda”. Dos 70 mil candidatos, uns 20 mil já são professores na rede estadual, como contratados ou como concursados com 20 horas. Como foram aprovados em torno de 5 mil candidatos e, considerando que todos pertençam ao sistema, a pergunta é: Qual será a atitude da Secretaria de Educação em relação aos seus professores reprovados no próprio concurso?  


[1] “Há algo de podre no reino da Dinamarca” – Hamlet de Shakespeare

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