O “Segundo Caderno” de ZH (25/02/2013) publica uma
interessante pesquisa desenvolvida pela profª Drª Regina Dalcastagnè[1]
(UNB). O que se tem no jornal é, com certeza, um pequeno fragmento do trabalho
da mestra, mas possibilita tecermos algumas considerações.
A pesquisa tem, como corpus de análise, obras de ficção
contemporânea do período de 1990 a 2004, publicadas pelas editoras Companhia
das Letras, Record e Rocco, num total de 258 romances.
Deste universo pesquisado, a autora conclui que: 93,9 %
são textos de autores brancos e 72,7% homens e que o eixo Rio-São Paulo
contribui com 68,5% das publicações. Conclui-se, portanto, que não-brancos
representam 6,1 %, as mulheres 27,3% e o restante do país surge com 31,5%.
A reportagem conclui que estes números não são novidade,
mas evidenciam “a dimensão do abismo que separa a diversidade da sociedade
brasileira e sua efetiva presença na literatura”. Não é de se esperar que a
diversidade da população tenha a mesma representatividade em todas as áreas de
atividades.
Das três editoras, utilizadas para a pesquisa, duas são do
Rio de Janeiro (Record e Rocco) e uma de São Paulo (Companhia das Letras). A
região Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo), segundo
o IBGE[2],
concentra 42% da população brasileira e corresponde ao maior mercado consumidor
de bens culturais do Brasil. Estes dois fatores (população e mercado)
justificam o fato de 68,5% das obras publicadas serem desta mesma região. A
atividade editorial é um setor econômico que, como os demais, objetiva o lucro
e, portanto, pauta suas publicações muito mais pelo interesse do consumidor do
que pela relação com a diversidade social.
Em termos de literatura, consumo e produção são duas
faces da mesma moeda. A percentagem de 93,9% de autores brancos deve
corresponder à soma de brancos, pardos e outros, deixando os 6,1% apenas para pretos.
Estes números são “perigosos”, pois quem quer mostrar o preto como “minoria”,
exclui os brancos e pardos e quem quer enfatizar a “maioria” branca, soma
pardos e brancos. É uma variável difícil de controlar em qualquer pesquisa,
pois a postura ideológica determina o procedimento a ser empregado.
Segundo o IBGE, a população brasileira está distribuída
em 5 grupos: 47,2% de brancos, 43,1% de pardos, 7,4% de pretos, 2,1% de
amarelos e 0,3% de índios. Os “93,9% de autores brancos”, na pesquisa, é um
número muito próximo da soma de brancos e pardos que, segundo o IBGE, é de
90,3%. Vendo sobre este prisma, o dado corresponde, com fidelidade, a uma
composição da sociedade brasileira que é predominantemente miscigenada.
Quanto ao gênero dos escritores, a pesquisa traz alguns
dados intrigantes: 62,1% masculino, portanto, 37,9 feminino. 81,0% são
heterossexuais, portanto 19,0% são homossexuais. Não há pesquisa confiável
sobre a percentagem de homossexuais na população brasileira, mas alguns
movimentos apontam 10% como sendo um número razoável. Isto permite dizer que os
homossexuais estão extrapolando a relação entre diversidade e representatividade.
Isto pode ser ótimo, mas é intrigante. Que escritor deixa, em sua biografia,
elementos suficientes para ser considerado homossexual?
Com razão o escritor e crítico Sérgio Rodrigues adverte:
“O mérito sociológico do levantamento é evidente, mas esse tipo de análise
baseada no perfil sociocultural dos autores, típico dos estudos culturais, tem
alcance limitado para dar conta do fenômeno literário”[3].
A reportagem continua com uma entrevista da pesquisadora.
Nela temos algumas confirmações. Diz a doutora Regina: “...há uma dificuldade
maior para pessoas não brancas (grifo
nosso) participarem de qualquer campo de discurso”. Isto confirma que o dado
foi obtido com o cálculo da soma de brancos e pardos.
No quesito seguinte quanto à aceitação da pesquisa,
afirma: “A reação foi curiosa”, lamentando que há pouca participação de
mulheres e negros no universo de escritores. Isto pode ser verdade, mas é por
demais evidente.
Logo abaixo percebe-se o ponto crucial do “mapeamento”,
pois a autora não faz distinção entre a representação literária e a
jornalística, afirmando; “Eu realmente acho que dá para juntar tudo”. A
representação na literatura é ficcional, enquanto no jornalismo deve
corresponder aos fatos noticiados. São dois universos distintos.
Com toda propriedade, a professora estabelece uma relação
importante entre literatura e educação, mas a fraca participação da população
negra no mundo literário é consequência da relação que esta comunidade
estabelece com a literatura como valor. Enquanto o livro perder para a bola, o “hip-hop”
e o “rap” não podemos falar em ascensão desta classe ao mundo letrado.
Não há escritor que não seja leitor. Ser leitor é uma condição
para o processo de escrita. Somente após o crescimento do número de leitores é
que poderemos imaginar o negro como partícipe do mundo editorial. O sistema
educacional deve fazer a “inclusão” através do desenvolvimento de programas de
leitura. A solução simplista seria criar “cotas” para escritores negros! Este
posicionamento parece ser da própria entrevistada quando diz que: “Precisamos
de mais educação, essa é a primeira questão. Não só para formar escritores, mas
para formar leitores interessados nos assuntos. Se aumentar o público leitor
negro, talvez as editoras se sintam impulsionadas a buscar uma literatura que
vai interessar a esse público”.
A reportagem conclui com a proposta de replicar a
pesquisa aqui no Rio Grande do Sul. Fico curioso para conhecer os resultados.
Os estudos culturais têm trazido uma contribuição muito
grande para a democratização dos bens culturais, mas não se pode confundir
“pesquisa” com “discurso”. No primeiro caso, vamos a campo para descobrir dados
e fatos; no segundo, tomamos dados conhecidos para construir a argumentação de
nosso discurso.

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