quinta-feira, 2 de abril de 2015

Esquerda - Direita – o canto das sereias

Vejo com melancolia a total insanidade de militantes, tanto de direita como de esquerda (dois termos ao gosto de Bobbio), que não deixam de descontruir os argumentos contrários, mas não surgem como propostas. Ambos esquecem de que são utopias e, como tal, estão fora do mundo dos fatos.
Direitistas empedernidos apregoam a volta da ditadura, pregam revolução e “impeachment” tudo com um fervor religioso. Por outro lado, esquerdistas pregam a revolução proletária, a luta de classes e o alinhamento estrangeiro. São dois tipos de radicalidade que, ao final, levam ao mesmo caos: o totalitarismo. O passado já nos mostrou que tão totalitário quanto o nazismo foi o comunismo stalinista. Estas pessoas não percebem que o mundo mudou e que as lutas contemporâneas são distintas das do século XIX e início do século XX.  
Às vezes, fico a pensar se vale a pena gastar tempo e energia para tentar trazer tais pessoas à realidade dos fatos e chego à conclusão de que não! Mas logo percebo que entregar o hospício aos loucos não é solução, pois alimentar a loucura é implantar o caos, é não trazer soluções. Aqui lembro de meu grande escritor Erico Verissimo:
“... tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror.”[1]
A polarização “direita/esquerda” gera apenas maniqueísmos, é uma atitude preocupada exclusivamente com a contra-argumentação, a desconstrução de discursos. Tal postura não gera novas propostas e, muito menos, é capaz de solucionar conflitos. Os conflitos surgem da contrariedade de interesses, os escândalos e arbitrariedades nos governos são resultados da construção de mitos. Toda ideologia totalitária cria mitos que encarnam os “princípios” norteadores da utopia, eles são a lei e posicionam-se acima das massas, para serem cultuados e seguidos de forma irracional.
Direita e esquerda não têm “centro”, dentro desta dicotomia não há possibilidade de posicionamento: centro-direita; centro-esquerda ou social-democracia; democracia social qualquer denominação deixa de ser “direita ou esquerda”. O caminho é a busca de valores como: humanismo (alguém lembra ainda do termo?), liberdade, tolerância e competência. Cito apenas estes valores como ilustrativos, mas a discussão pode ser muito mais ampla.
Nada resolve falar em “direitos humanos” se não incluirmos entre os “humanos” todos os cidadãos. Abrir os olhos para a morte de um traficante e fechá-los para a de um chefe de família que é morto no caminho do trabalho, não é direitos humanos. Estou ciente do risco de citar, mas não posso dispensar Heidegeer e concordar que o ser humano tem sua morada no próprio ser.  Humanismo não está na cor, no sexo ou classe social, está no respeito ao ser em si.
A liberdade parece ser o maior objetivo humano, todos lutam por ela e por ela morrem! Não se pode cair na falácia de “morrer lutando”, pois a morte é o fim da própria liberdade. Todo totalitarismo busca incutir nas massas o dever de “lutar pela causa”, ou seja, abrir mão de sua liberdade em prol da causa maior. Este é o discurso marxista, foi o discurso nazista e é o próprio discurso do fundamentalismo religioso. Ninguém pode abrir mão da própria liberdade e, muito menos, tolher a liberdade alheia. Isto parece ser plenamente esquecido pelos míticos líderes políticos.
A tolerância não é uma forma de distanciamento, de “Laissez-faire”, de falta de comprometimento. Ela é respeito, acolhimento e aceitação, sem que isto implique adesão. Hoje, é difícil compreender a postura que expressa “eu entendo”, “não condeno”, mas continuo diferente. Neste caso, entram em choque dois valores: a liberdade e o direito à diferença. Cada um pode escolher pertencer a um grupo diferente, mas não pode exigir que os demais submetam-se as suas regras. A tolerância tem como corolário a liberdade!
Deixei para o fim a questão da competência, não por acaso e, muito menos, por julgar pouco importante. Competência, excluindo o sentido jurídico, é a capacidade de produzir resultados. Desenvolvo aqui o sentido social para o termo, ou seja, a presença e a ação de alguém dentro do grupo social. O ser competente é capaz de atuar na história do grupo, tornando-o mais coeso e harmonioso. No plano administrativo é trazer resultados positivos para a sociedade. O administrador não tem direito de ser incompetente sob a alegação de que está engajado numa “causa maior”, futura. A ideologia não pode se sobrepor à competência. Discursos não trazem resultados! Promessas e projetos não são realizações! Muito menos a omissão e o desconhecimento podem ser razões para a inculpabilidade.
É difícil fugir das dicotomias e das utopias, encarando a realidade na busca de resultados satisfatórios. Esta é uma contribuição mínima para o esforço de superar posicionamentos ultrapassados e buscar um caminho seguro para combater todas as formas de totalitarismo que sempre rondam os nossos destinos. Como Ulisses, podemos ouvir o canto das sereias, mas bem providos de cera!




[1] VERISSIMO, Erico. Solo de Clarineta. vol. 1. Porto Alegre: Globo, 1974, p. 45.

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