Vejo com melancolia a total insanidade de militantes, tanto
de direita como de esquerda (dois termos ao gosto de Bobbio), que não deixam de
descontruir os argumentos contrários, mas não surgem como propostas. Ambos
esquecem de que são utopias e, como tal, estão fora do mundo dos fatos.
Direitistas empedernidos apregoam a volta da ditadura,
pregam revolução e “impeachment” tudo com um fervor religioso. Por outro lado,
esquerdistas pregam a revolução proletária, a luta de classes e o alinhamento
estrangeiro. São dois tipos de radicalidade que, ao final, levam ao mesmo caos:
o totalitarismo. O passado já nos mostrou que tão totalitário quanto o nazismo
foi o comunismo stalinista. Estas pessoas não percebem que o mundo mudou e que
as lutas contemporâneas são distintas das do século XIX e início do século XX.
Às vezes, fico a pensar se vale a pena gastar tempo e
energia para tentar trazer tais pessoas à realidade dos fatos e chego à
conclusão de que não! Mas logo percebo que entregar o hospício aos loucos não é
solução, pois alimentar a loucura é implantar o caos, é não trazer soluções. Aqui
lembro de meu grande escritor Erico Verissimo:
“... tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que um
escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é
acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que
sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos.
Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror.”[1]
A polarização “direita/esquerda” gera apenas maniqueísmos, é
uma atitude preocupada exclusivamente com a contra-argumentação, a
desconstrução de discursos. Tal postura não gera novas propostas e, muito
menos, é capaz de solucionar conflitos. Os conflitos surgem da contrariedade de
interesses, os escândalos e arbitrariedades nos governos são resultados da
construção de mitos. Toda ideologia totalitária cria mitos que encarnam os “princípios”
norteadores da utopia, eles são a lei e posicionam-se acima das massas, para
serem cultuados e seguidos de forma irracional.
Direita e esquerda não têm “centro”, dentro desta dicotomia
não há possibilidade de posicionamento: centro-direita; centro-esquerda ou
social-democracia; democracia social qualquer denominação deixa de ser “direita
ou esquerda”. O caminho é a busca de valores como: humanismo (alguém lembra
ainda do termo?), liberdade, tolerância e competência. Cito apenas estes
valores como ilustrativos, mas a discussão pode ser muito mais ampla.
Nada resolve falar em “direitos humanos” se não incluirmos
entre os “humanos” todos os cidadãos. Abrir os olhos para a morte de um
traficante e fechá-los para a de um chefe de família que é morto no caminho do
trabalho, não é direitos humanos. Estou ciente do risco de citar, mas não posso
dispensar Heidegeer e concordar que o ser humano tem sua morada no próprio
ser. Humanismo não está na cor, no sexo
ou classe social, está no respeito ao ser em si.
A liberdade parece ser o maior objetivo humano, todos lutam
por ela e por ela morrem! Não se pode cair na falácia de “morrer lutando”, pois
a morte é o fim da própria liberdade. Todo totalitarismo busca incutir nas
massas o dever de “lutar pela causa”, ou seja, abrir mão de sua liberdade em
prol da causa maior. Este é o discurso marxista, foi o discurso nazista e é o
próprio discurso do fundamentalismo religioso. Ninguém pode abrir mão da
própria liberdade e, muito menos, tolher a liberdade alheia. Isto parece ser
plenamente esquecido pelos míticos líderes políticos.
A tolerância não é uma forma de distanciamento, de “Laissez-faire”,
de falta de comprometimento. Ela é respeito, acolhimento e aceitação, sem que
isto implique adesão. Hoje, é difícil compreender a postura que expressa “eu
entendo”, “não condeno”, mas continuo diferente. Neste caso, entram em choque
dois valores: a liberdade e o direito à diferença. Cada um pode escolher
pertencer a um grupo diferente, mas não pode exigir que os demais submetam-se
as suas regras. A tolerância tem como corolário a liberdade!
Deixei para o fim a questão da competência, não por acaso e,
muito menos, por julgar pouco importante. Competência, excluindo o sentido
jurídico, é a capacidade de produzir resultados. Desenvolvo aqui o sentido
social para o termo, ou seja, a presença e a ação de alguém dentro do grupo
social. O ser competente é capaz de atuar na história do grupo, tornando-o mais
coeso e harmonioso. No plano administrativo é trazer resultados positivos para
a sociedade. O administrador não tem direito de ser incompetente sob a alegação
de que está engajado numa “causa maior”, futura. A ideologia não pode se
sobrepor à competência. Discursos não trazem resultados! Promessas e projetos
não são realizações! Muito menos a omissão e o desconhecimento podem ser razões
para a inculpabilidade.
É difícil fugir das dicotomias e das utopias, encarando a
realidade na busca de resultados satisfatórios. Esta é uma contribuição mínima
para o esforço de superar posicionamentos ultrapassados e buscar um caminho
seguro para combater todas as formas de totalitarismo que sempre rondam os
nossos destinos. Como Ulisses, podemos ouvir o canto das sereias, mas bem
providos de cera!

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