sexta-feira, 3 de abril de 2015

Movimento social ou político?

Passeata de ciclistas em Porto Alegre
O foco do texto é a celeuma que toma conta da imprensa no Brasil sobre as ciclovias[1]. A notícia utilizada é uma reportagem da Folha de São Paulo (27/03/2015) sobre uma manifestação de ciclistas na Avenida Paulista, São Paulo/SP. Os grupos de ciclistas, Pedal Paulista, Pedal ZN, Bike Party e Pedalinas,  protestam contra uma decisão do MP/SP que suspendeu a construção de novas ciclovias, tal decisão foi logo cancelada.
Os ciclistas reivindicam ciclovias (confusão com ciclofaixas), considerando-as prevalentes sobre os espaços para os demais veículos. Os argumentos são muitos, dentre eles: um é ecológico - deslocamento sem poluição; outro é de ordem econômica – deslocamento econômico para o trabalhador.
Para não restar dúvidas, posiciono-me, em tese, contra tais movimentos, por diversas razões.
a)      Os que estão nestes protestos não são trabalhadores, mas “moçoilos e moçoilas” que, aos finais de tarde, saem para passear de bicicletas. Nada mais justo e merecido do que um passeio após um turno de trabalho ou estudo, mas considerar este deleite como prioritário, prejudicando o deslocamento dos que utilizam transporte público para voltar do trabalho é um abuso!
b)      Os verdadeiros operários estão nas periferias, em torno das fábricas e já fazem o deslocamento com “magrelas”, estes não estão buscando nada. Ninguém imagina a Avenida Paulista como via de operários. Grande parte, desloca-se de carro até o ponto de protesto, depois tira a bicicleta do porta-malas e parte para a “luta”. É falsa a hipótese de que aqueles manifestantes são operários!
c)      Ciclismo é esporte e muito importante, mas não são atletas que lá estão, pois estes sabem que seus locais de treino estão longe do trânsito intenso. Atleta é um sujeito ordeiro e focado em seu desempenho, não tem tempo para tais manifestações.
d)     Deslocamento de bicicleta não é viável como transporte diário, pois o clima em Porto Alegre apresenta dias muito quentes (acima de 30º) ou muito frios (abaixo de 10º), bem como média pluviométrica alta[2]. Sob estas condições climáticas, um operário percorrer mais de 10km (ida e volta), por dia é praticamente impossível. Por esta, e outras razões, é que a classe operária busca transporte de massa.
e)      Todos concordam que a bicicleta é um excelente exercício físico, porém não o único. Pedalar consome de 180 a 300 Kcal/hora enquanto caminhar (moderado) consome 240 Kcal/hora ou jogar futebol, 580 kcal/h. Quem tenta justificar as ciclovias com este argumento, perde-o totalmente ao consultar algumas tabelas de consumo de calorias por atividade.
f)       Planejamento urbano não é algo que interesse a estes manifestantes, o importante é a ciclovia, mesmo prejudicando o restante do trânsito. Como transporte integrado, dentro de um modal planejado, a bicicleta pode ser um ótimo veículo para trajetos menores, como da casa ao ponto de ônibus ou trem. Ela é útil para deslocamentos dentro dos bairros ou mesmo entre bairros. Cidades como Porto Alegre, principalmente a região central, não apresenta condições para ciclovias sem prejuízo do fluxo normal do trânsito.
g)      Mostrar exemplos de Bogotá, ou Holanda, são utopias, pois são realidades distintas, há que se ter um plano para cada realidade geográfica. O que se tem de pensar é Porto Alegre e seu sistema viário.
h)      Um exemplo simples: Uma rua de perímetro urbano tem em média 10m de largura. O código de trânsito prevê a distância para ultrapassagem de veículo (incluindo bicicletas) 1,5m, um carro popular tem 2,40m de largura, o estacionamento tem 2,50 de cada lado. Para implantar uma ciclovia, neste caso, somente impedindo estacionamento dos dois lados da rua! O problema não é pintar ciclofaixas, mas prestar atenção na realidade dos fatos.
i)        É possível adotar um sistema que inclua o ciclista, desde que ele assuma as mesmas responsabilidades do motorista. Quem dirige sabe o quanto os ciclistas são imprudentes; ultrapassando pela direita, descendo das calçadas de forma inadvertida e andando na contramão. Quem disciplina estas barbáries no trânsito?
Depois destes argumentos e, muitos outros, que poderiam ser acrescidos, pode-se perceber uma questão de fundo que parece que muitos não estão percebendo. Na reportagem da Folha de São Paulo, há um registro interessante. Alguém contesta a manifestação gritando “vai prá Cuba”.  Isto é bem revelador, mostra o quanto a população, em geral, já entendeu que não é uma questão de modo de transporte, mas um movimento político que vê no ciclista uma massa de eleitores. Os governos não estão empenhados na busca de soluções para o transporte, mas na conquista de eleitores e, por último, busacam entreter a população, desviando a atenção para o problema mais grave que é a falta de investimentos em transporte público de qualidade.
Na verdade, “movimentos sociais” é uma nomenclatura cunhada ideologicamente com a finalidade de encobrir a verdadeira função que é a propagação da luta de classes, tal como Marx a previu, buscando a “revolução operária”, passando da sociedade capitalista para a comunista, em termos marxistas. Infelizmente, a população custa a entender tal realidade e serve de massa de manobra para alguns agentes políticos.
Impossível abordar temas, como ciclovias, ao calor de lutas e confrontos. Se a luta por ciclovias, não estivesse comprometida com interesses políticos, com certeza, seria encaminhada de outra maneira, bem distinta do incentivo da luta de classes (motoristas x ciclistas).
A solução para o problema de transporte deve vir da voz dos trabalhadores e não dos gritos de militantes políticos. A solução está no transporte de massa, utilizando a bicicleta como elemento integrante, dentro de um plano viário racional.  

Fonte:




[1] Ciclovia: É um espaço separado fisicamente para o tráfego de bicicletas. É o modo mais seguro, porque há um isolamento impedindo o contato com os demais veículos. Esse tipo de segregação é encontrado em avenidas e vias expressas pois protege o ciclista do rápido e intenso trânsito.
Ciclofaixa: Esse tipo de separação não é físico. Aqui ela é feita apenas com uma faixa pintada no chão, tendo no máximo “olhos de gato” ou “tartarugas”. Está é indicada para locais onde o trânsito é calmo e é mais barata que a ciclovia, pois usa a própria estrutura da estrada.
[2] Médias da temperatura em Porto Alegre
Média anual
Outono
Inverno
Primavera
Verão
19,5ºC
10ºC e 25ºC
2ºC e 20ºC.
15ºC e 30ºC.
25ºC e 35ºC.
Média pluviométrica em Porto Alegre – Acima de 100mm

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